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terça-feira, 14 de junho de 2011

EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Às cores

Vi suas verdadeiras cores.
Vivi suas dores
As minhas
As suas
As de poucos
Às de ouro
As de todos
As que eu podia suportar
E aquelas que ninguém consegue aguentar.
Sempre fiz o que pude
Até o que não queria
Não me faltou coragem
Não me faltou vontade
Fui forte
Fui nobre
Carreguei-te no colo
Cantei meu último solo
Chorei só
E tudo agora é pó
E tudo agora é cinza
Eu vi suas verdadeiras cores
E desejei voltar a ser cego.

IMM

Na mesma
=/

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Padecer

E eu tinha tanta coisa para compartilhar
Coisas que eu quis mostrar,
Quem sabe até ensinar,
Sobre mim, sobre o mundo, submundo
Sobre coisas que escondemos bem fundo.
Acontece que estou apenas a aprender
Estou apenas a perceber
O que sempre há de perecer
O que sempre estou a perder.
Um dia houve o momento em que o tempo ficou lento
Para no fim restar apenas lamento.
Um dia houve o beijo que fez meu corpo estremecer
Houve o amor que fez meu coração aquecer
O toque de carinho que me fez sair do caminho
As penas que me fizeram voar,
O sussurar de palavras que me fizeram voltar a sonhar,
E, no fim, lágrimas voltaram ao meu olhar.
É a pena que tenho de pagar.
"Eu não te amo mais"
Como você foi capaz?
Talvez seja fácil de dizer
Mas será difícil de entender
As coisas que quero esquecer...
O adeus que fez meu corpo esmorecer
Minha'lma adoecer
E meu Amor morrer.


IMM


-

Porque hoje acordei poético, patético, um pouco epiléptico e muito apático, o que não é atípico.
=/

domingo, 2 de novembro de 2008

Eu, o Vento


Que sou calmo e violento, sou

vendaval e brisa que a mercê da vida,

às vezes sou conforto, às vezes

incômodo. Às vezes paz, às vezes

caos.


Eu, o vento, que sou incolor e frio,

sou calor e sangue, que a mercê da

vida, às vezes sou dor, às vezes

rotina. As vezes sou morte, às vezes

vida.


Eu, o vento, que sou órfão e só, sou

carinho e carente, que a mercê da

vida, às vezes sou colheita, às vezes

plantio. Às vezes sou notado, às

vezes esquecido.


Eu, o vento, que sou força e anemia,

sou opressor e vítima, que a mercê da

vida, às vezes sou vento,

simplesmente.


Mário Nhardes

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Lembranças de um Futuro Presente


Morto em vida

Em partida

Sem saída

Jogada à própria sorte

No norte,

Em sua lápide

Escrito mais forte que a morte:

"Pobre menino ideal.

O que te faltou afinal?"

Morreu sem conhecer o mar

Sem poder voar

Sem saber amar

Uma vida que simplesmente

Passou por passar...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Busca Perdida


Cabelos ao vento
Ao léu, pensamentos
Divagar ao relento
Em todos os momentos
De vagar ao desbravamento
Sem esmero não se alcança Eros
Feliz, triste, persiste e insiste
Naquilo que se diz
Como é mesmo?
Ah, o tal do amor
Procurado a esmo
Uma busca que cessa
Ao zero regressa
E falha na sua promessa
Derrotado por si próprio
Que virá agora?
O vício do ópio?
Algo mais além, talvez
Que seja, e seja como for
Perde-se a lucidez
Aquém ainda procura
Esse tal de amor?
Alguém?
---
I.M.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Dispersão


Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar,
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).
Pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que me abismastes nas ânsias.
A grande ave doirada
Bateu asas para os céus
Mas fechou-se saciada
Ao ver que ganhava os céus.
Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.
Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro
Não me acho no que projeto.
Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha dentro de mim.
Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida
.
Assim eu choro, da vida,
Eu nunca vi... mas recordo
A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.
(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que sonhei!... )
E sinto que a minha morte —
Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.
Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas. . .
Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pr'a se dar
Ninguém mas quis apertar
Tristes mãos longas e lindas
Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!
Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.
Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em, uma bruma outonal.
Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço ...
...............................................
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
..............................................


Mário de Sá Carneiro